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Saúde Ocupacional: Entrevista à docente Elisabete Borges

Mafalda Duarte

Autor: Mafalda Duarte, 1ºano CLE
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Saúde Ocupacional: Entrevista à docente Elisabete Borges

Elisabete Maria das Neves Borges, investigadora integrada do Grupo de Investigação NursID, do CINTESIS, Professora Adjunta na Escola Superior de Enfermagem do Porto (ESEP). Será que pode falar-me um pouco sobre o CINTESIS? Nomeadamente quais os objetivos do grupo de investigação NursID, bem como quais os focos de interesse.

Professora Elisabete: Bom dia! Antes de mais queria agradecer à Associação de Estudantes por esta iniciativa penso que em prol, não só do desenvolvimento dos estudantes mas também da enfermagem, portanto, deixo aqui os meus parabéns. Dou também os parabéns por esta oportunidade de nós, professores, podermos participar e divulgar o trabalho que temos vindo a desenvolver ao longo da nossa carreira.

Relativamente à questão que me coloca sobre o CINTESIS, sobre o grupo “NursID”, eu faço efetivamente parte do grupo do CINTESIS, integrada como membro do grupo NurID, um dos grupos que está no CINTESIS direcionado para a Enfermagem. Neste grupo, eu coordeno o Projeto INT-SO (Projeto Internacional de Saúde Ocupacional: Dos contextos de trabalho à saúde ocupacional dos profissionais de enfermagem, um estudo comparativo entre Portugal, Brasil e Espanha). Efetivamente, aquilo que nós pretendemos no grupo é promover a investigação ao nível da Enfermagem, valorizar a importância das redes de parceria (não só a nível nacional, mas também a nível internacional) e valorizar aquilo que é a Enfermagem, em diferentes áreas. No caso do projecto INT-SO, é a Saúde Ocupacional. Lanço aqui o desafio também da Associação navegar um pouco na página do NursID e ver a diversidade de projectos que lá existem, nomeadamente neste momento somos cerca de 130 investigadores.

E porque razão estabeleceram parcerias com o Brasil, em particular?

Professora Elisabete: Por várias razões. Uma delas, a questão cultural. Existir muito de comum na cultura, os movimentos migratórios da história, a acessibilidade da língua e o facto de eles também, a nível da Saúde Ocupacional, na minha perspetiva, estarem um pouco mais desenvolvidos. Aí, surgiu a questão do Brasil. Em relação a Espanha, a posição geográfica, a mobilidade e a língua que também é facilitadora.

Sabemos que é doutorada em Enfermagem pelo Instituto Ciências da Saúde da Universidade Católica Portuguesa (UCP) em 2012, fez Mestrado em Filosofia-Bioética na Faculdade de Filosofia da UCP e o Curso de Estudos Superiores Especializados em Enfermagem na Comunidade na então designada Escola Superior de Enfermagem de São João. Em que medida a sua formação académica a levou para a Saúde Ocupacional?

Professora Elisabete:  Isso é uma pergunta interessante. Em que medida… Falta aqui o Curso de Enfermagem. A pertinência da Saúde Ocupacional emergiu em 1983/1985. Na altura no curso pouco se falava acerca da Saúde Ocupacional, mas eu tive uma professora, que foi a Enfermeira Alcina Carvalho, que tinha uma experiência de trabalho numa empresa e que nos foi também partilhando. Nessa altura, sinceramente, não valorizei muito. A paixão pela Saúde Ocupacional emergiu sim, a nível do meu Curso da Especialidade em Enfermagem Comunitária na então Escola de Enfermagem do S. João e aqui eu tive como oportunidade a opção de Enfermagem no Trabalho. Selecionei esta opção e para mim foi um deslumbrar… Um deslumbrar do ponto de vista teórico (quando fiz a especialidade já tinha estado cerca de 11 anos no Hospital Maria Pia, e estava altura exercer no Hospital Joaquim Urbano). Do ponto de vista teórico foi fantástico. Conseguiu satisfazer-me na plenitude do ponto de vista teórico. Tive também um corpo docente bastante interessante que acabou por nos motivar. Alguns pela experiência que já tinham associada à Enfermagem do Trabalho e que elevou bastante a motivação; depois tive a possibilidade, nessa mesma opção, na componente do estágio, de realizar um estágio numa empresa (Soares da Costa), com uma colega de especialidade fantástica (a Enfermeira Maria Joana Tavares), em que nós tivemos a ousadia, de propor um trabalho que as orientadoras da escola autorizaram e, tivemos alguma dificuldade na empresa. Tivemos também uma enfermeira orientadora do estágio que foi a enfermeira Paula Maia. Eu e a enfermeira Joana Tavares muito motivadas, muito teimosas, muito determinadas naquilo que queríamos fazer, tivemos o apoio da enfermeira Paula Maia. Na altura, tivemos um médico que de início não foi assim muito receptivo (Dr. Ferreira Leal), mas depois percebeu efectivamente o que nós queríamos e não nos criou qualquer obstáculo. Tivemos oportunidade de desenvolver o estágio na Soares da Costa tanto no ramo da construção civil como no ramo da metalomecânica, como no ramo da construção de uma ETAR em Barcelos, na altura, conseguimos proximidade com os trabalhadores. Associada a componente teórica à componente prática, felizmente, as notas que obtivemos foram excelentes e isso ainda nos motivou mais. Com esse trabalho, nós apresentamo-lo num congresso da Sociedade Portuguesa de Medicina no Trabalho. Foi o único poster que foi apresentado nesse ano e obtivemos um prémio, o que ainda nos motivou mais! A partir daí, foi sempre a minha paixão a Saúde Ocupacional, até porque fiz o percurso do Mestrado em Filosofia-Bioética (UCP), mas relacionado com questões laborais, portanto eu fiz na perspetiva do sofrimento dos enfermeiros em pediatria. Não só naquela vertente filosófica dos princípios básicos, , mas essencialmente tentar perceber se as vivencias de um enfermeiro de pediatria com crianças em fase final de vida, de algum modo os afetava ou não. Percebi aí que os enfermeiros faziam muita referência à questão do stress, foi a primeira ponte. Do Mestrado saltei para o Doutoramento em que assumi esta área e já há vão 20 anos com muito gozo, muito prazer e muita dificuldade. Vemos que estamos num país a avançar lentamente nesta área, mas ainda há muito a fazer.

O que é “Saúde Ocupacional” para a enfermagem?

Professora Elisabete: A Saúde Ocupacional, sendo uma das áreas da Enfermagem, nomeadamente da Enfermagem do Trabalho que não tem, neste momento, aquela visibilidade que eu gostaria que tivesse, efetivamente aquilo que ela pretende, no fundo, visa a prevenção a a promoção de saúde no local de trabalho, em prol dos ambientes de trabalho saudáveis. Aqui, o enfermeiro do trabalho tem múltiplos papéis a poder desenvolver cuja finalidade é a saúde do trabalhador. Quando falamos em Saúde Ocupacional, estamos a falar de riscos, estamos a falar de gestão, de educação para a saúde, da prevenção ao nível das três áreas (primária, secundária e terciária).  A Saúde Ocupacional deve ser desenvolvida interdisciplinarmente e o que acontece é que o enfermeiro do trabalho tem aqui um papel bastante significativo, não só ao nível da vigilância de saúde dos trabalhadores (aquilo que maioritariamente, hoje, os serviços desenvolvem) mas tentar dar o salto para a promoção. Neste momento, o país vive uma crise económica, o que limita cada vez mais o potencial de dar esse mesmo salto. Se até há uns anos atrás a Enfermagem do Trabalho não tinha a visibilidade que tem porque havia poucos enfermeiros e ao nível da formação nem todos a tinham, atualmente tal não se verifica. Contudo, temos agora outras variáveis que têm a ver com questões económicas, de recursos humanos. Mas existem algumas empresas que conseguem ter uma boa prestação ao nível da Saúde Ocupacional.

Considera que enfermeiros de saúde ocupacional têm um trabalho acrescido por terem de tratar da sua própria saúde e ainda da saúde dos outros trabalhadores?

Professora Elisabete: Em primeiro lugar, nós somos enfermeiros, nós somos pessoas. Não podemos cuidar dos outros se não cuidarmos de nós próprios. Portanto, é essencial que as organizações (sejam hospitais, seja nos Cuidados de Saúde Primários, sejam as empresas, ou até as pequenas empresas familiares) tenham esta sensibilidade para a questão da prevenção e da promoção da saúde. Os enfermeiros se não estiverem conscientes dos riscos que eles próprios correm, não conseguirão exercer um trabalho significativo para o cliente.

Sente que os profissionais de saúde são recetivos à saúde ocupacional?

Professora Elisabete: Eu penso que temos aqui um trabalho grande a fazer e passa por, em primeiro lugar, sermos nós próprios a valorizar a Saúde Ocupacional. As questões da formação e da informação são essenciais. Se são receptivos… Eu penso que, se houver uma boa informação, eles são receptivos. Mas eles são receptivos naquilo que o serviço lhes pode dar. Se um enfermeiro, neste caso, vai a um serviço meramente para ter acesso a um exame de aptidão profissional, para fazer a sua vigilância obrigatória quer seja de admissão ou as seguintes, ele poderá ficar um pouco aquém daquilo que são as suas expectativas. Se o enfermeiro não perceber aquilo que o serviço lhe pode oferecer, não irá recorrer se assim necessitar. Neste caso, são necessárias pessoas formadas, com disponibilidade de tempo para ouvir e com sensibilidade.

Quais considera os maiores desafios para os enfermeiros de Saúde Ocupacional, tendo em conta as condições de trabalho dos dias de hoje?

Professora Elisabete: Eu diria que os enfermeiros do trabalho têm o grande desafio de trabalhar com qualidade, neste momento, com os recursos que têm, essencialmente os recursos humanos. Penso que os grandes desafios são do ponto de vista da política nacional, da situação económica, da formação académica e profissional.

No âmbito da Saúde do Trabalho destacam-se 5 principais vertentes:

  1. Gestão do risco profissional
  2. Vigilância da Saúde
  3. Promoção da saúde
  4. Vacinação dos trabalhadores
  5. Emergência e Primeiros socorros

Consegue destacar mais alguma vertente na qual se deva investir?

Professora Elisabete: Todas estas estão associadas no sentido da promoção de saúde no trabalho. Colocaria a questão da investigação, da gestão do conhecimento e da própria divulgação. Os serviços devem estar sensibilizados para a área da investigação e para a divulgação daquilo que fazem! Nós, em Portugal, até fazemos coisas bastante interessantes, mas ainda não temos assimilada a importância da divulgação do conhecimento.

Sabemos que lançou recentemente o livro “Enfermagem do Trabalho: Formação, Investigação e Estratégias de Intervenção”. Conte-nos, Professora Elisabete, de onde veio a ideia, as dificuldades, a motivação, o momento de grande alegria e o momento atual, ou seja, como está a ser o feedback dos leitores.

Professora Elisabete: São várias perguntas interligadas! Tentando começar pela vertente da motivação, ela vem da paixão que tenho pela Saúde Ocupacional e pelas dificuldades que eu sentia sempre que fazia pesquisa nesta área. Não encontrava nada escrito em termos de compilação por portugueses, portanto, a bibliografia ou era Brasileira, ou era Americana. Esta foi a primeira motivação. Depois, também, tive a oportunidade de no momento de lançamento do livro de um colega (Professor Carlos Sequeira), ter um momento de partilha e ter-me sido feito também um desafio. No primeiro momento não valorizei muito e depois fui para casa e pensei… “e por que não?!”… Foi feita a primeira proposta de apresentação do livro (sendo que eu sou a coordenadora, o livro tem um total de 25 autores) e enquanto coordenadora tive um trabalho acrescido na parte inicial, no que diz respeito a tentar, dentro dos três países, seleccionar os conteúdos. A ideia foi que o conteúdo fosse maioritariamente português, mas também ter a mais-valia de conhecimentos de outros investigadores e outros profissionais. Neste momento, o livro foi lançado em Espanha em abril e no Porto em maio de 2018. Os autores estão distribuídos, a nível nacional, desde a Escola Superior de Enfermagem de Viana do Castelo, Braga, Coimbra, ESEP (no Porto) e Universidade Fernando Pessoa, Hospital Polido Valente em Lisboa, Unidade de Saúde da Ilha de S. Miguel, Açores, Universidade de Oviedo, Espanha e a Escola de Enfermagem da Universidade de S. Paulo, entre outras. Em termos de qualificação temos por exemplo enfermeiros do trabalho, docentes de enfermagem, investigadores, psicólogos e técnicos de higiene e segurança. Portanto, houve aqui uma preocupação de ser também com diferentes áreas disciplinares. A conjugação dos diferentes autores é o nível da sua qualificação, localização geográfica e ainda actividade profissional.

Quanto tempo levou a escrever o livro?

Professora Elisabete: Este livro teve um tempo de elaboração muito rápido. O desafio foi lançado em novembro de 2016, a proposta de índice foi em meados de dezembro de 2016 e o livro foi lançado em abril de 2018. Efectivamente o feedback foi muito rápido, enquanto coordenadora sei que fui um pouco exigente em relação aos timings (e se não tivermos esta função, dificilmente conseguiremos), mas nesse aspeto também tive a oportunidade de trabalhar com colegas que cumpriram os timings dentro do que era razoável, sendo que daí advém o sucesso do tempo.

O seu livro tem um público-alvo? A quem se dirige, em específico?

Professora Elisabete: O público-alvo, essencialmente, são enfermeiros. Podemos dizer que tem aqui conteúdo também para psicólogos, técnicos de segurança e higiene, estudantes de Enfermagem. Essencialmente, este livro, foi pensado para os estudantes. Isto porque tem aqui um conjunto de capítulos (que nos preocupamos com a perspetiva da historia e da legislação de Saúde no Trabalho), organização dos serviços de Saúde Ocupacional a nível de Portugal, Brasil e Espanha- especificidades dos três contextos; riscos profissionais; acidentes de trabalho; ética; investigação em Enfermagem no Trabalho; a valorização da investigação em rede como partilha do conhecimento. Este livro está direccionado para um publico alvo muito abrangente, essencialmente eu penso que os estudantes de Enfermagem têm uma mais valia na sua leitura, não só pensando na questão da Saúde Ocupacional, mas principalmente na promoção da saúde no local de trabalho (por exemplo a comunicação, stress, Bullying, LMERT e a biossegurança) porque todos os estudantes, nos diferentes ensinos clínicos, são enfermeiros em potencialidade e estas situações vivenciam-se quer enquanto estudantes, quer enquanto enfermeiros. Depois, também se enquadra em profissionais de gestão de recursos humanos, professores, todos os trabalhadores.

Pode falar-nos um pouco sobre a estrutura do seu livro?

Professora Elisabete: Tem a parte inicial mais histórica, organizacional, riscos profissionais, acidentes de trabalho e doenças profissionais, pratica clinica; ética, educação, formação e investigação. E, um grande capítulo de Promoção da Saúde no local de trabalho em que quisemos dar-lhe uma ênfase bastante significativo.

Em que medida este livro se pode tornar útil para o apoio à prática clínica e até mesmo à investigação dos profissionais de saúde que se dedicam à área da Saúde Ocupacional?

Professora Elisabete: Ele é útil porque tem aqui, de uma forma sintética (208 páginas) a formação essencial ao nível da Saúde Ocupacional. Em relação à pratica clinica, obviamente se estamos a falar de capítulos que abordam a prevenção, riscos, questões éticas, ela é útil para a prática clinica em todas a áreas.

Para terminar, quero perguntar-lhe se sente que conseguiu separar o papel de “escritora do livro” do papel de “enfermeira” e do papel de “professora da Escola Superior de Enfermagem do Porto”. Sente que foi essa conjugação que a ajudou a ter uma compreensão global acerca dos temas essenciais a serem abordados, ou por outro lado, considera que teve que se despir de certos papéis para ter uma melhor prestação?

Professora Elisabete:  Eu sinto que não despi nenhum papel, uma vez que só assim consegui ver na plenitude. Ou seja, se este livro nasce de uma experiencia profissional de 14 anos ao nível da docência ESESJoão e ESEP, da nível da minha pratica hospitalar, na pediatria (HCEC Maria Pia), e de Enfermeira Especialista e com responsabilidade de serviço (H Joaquim Urbano). Todas as experiências e vivências foram contributo para a obra. Não senti necessidade de despir. O facto de ser docente deu-me alguns benefícios, nomeadamente na parte da investigação e gestão do conhecimento. Mas se eu não conseguisse vivenciar aquilo que os enfermeiros vivenciam na pratica, conhecer os riscos a que eles estão sujeitos, não conseguiria ver no global. Penso que foi a conjugação das minhas várias formações, que me conseguiu dar hoje uma visão mais global desta área.

Em tom de despedida, quero agradecer-lhe mais uma vez pela disponibilidade, pela sua colaboração e pela atenção. Em nome do Clube de Jornalismo, quero salientar que é muito importante para nós ter o testemunho de pessoas como a Professora, que nos fazem acreditar que o futuro depende de nós e que podemos ser quem quisermos. Obrigada!

Professora Elisabete: Eu agradeço uma vez mais os desafios que me propuseram. Deixo também aqui o desafio à Associação de Estudantes, mesmo sabendo que a área da Saúde Ocupacional tem alguma limitação em termos do número de horas do plano de estudos, mas nós temos o grupo de investigação (INT-SO) que está nomeadamente disponível para estudantes de licenciatura. Temos estudantes de Mestrado e de Doutoramento, mas estamos abertos a estudantes de licenciatura. O Brasil já tem, Espanha não e nós também ainda não temos esta perspetiva. Por isso, lançamos este desafio à Associação. Se houver alguém que tenha ficado um bocadinho deslumbrado pela área da Saúde Ocupacional, entre em contacto connosco. Obrigada!

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